Por que lamentas?
O texto a seguir, intitulado Por que lamentas? é de Frei Betto. Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Editora Cortez), entre outros livros que o referido escritor já tem publicado... Um texto a nos interpelar diante da realidade da vida e do contexto em que estamos vivendo, propondo-nos lamentar menos, quando existem tantos em situações de lamentos e que são mais agradecidos que não deveriam, realmente, passar pelo que estão passando.
Estampa disponível em https://domtotal.com/artigo/8736/2020/04/por-que-lamentas/ acessado hoje
Por que lamentas?
Por que lamentas estar isolado dentro de casa?
Já pensaste naqueles que nem casa têm e
são obrigados a conviver com o risco iminente da infecção?
Ou será que o teu coração é um
cômodo entupido de ego, sem lugar para mais ninguém?
Por
que lamentas se, agora, vives em uma prisão de luxo, com liberdade para
estabelecer teus horários e escolher a comida que te agrada?
Pensa naqueles que enfrentam longas
filas para receber uma quentinha da caridade alheia.
Por
que lamentas ao se ver obrigado a cancelar a festa de aniversário ou casamento,
e arcar com o prejuízo que não será ressarcido?
O que preferirias, a festa com
o Coronavírus invisível circulando entre teus convidados ou preservar a tua e
outras vidas para festas vindouras?
Por
que lamentas não poder, agora, fazer a viagem sonhada e programada, e se ver
forçado a ficar recolhido em teu espaço doméstico?
Ou seria melhor uma passagem sem volta
para a morte?
Por
que lamentas não poder sair à rua, encontrar amigos e voltar a tua rotina de
trabalho e lazer?
Ainda podes conversar por telefone,
talvez trabalhar desde casa e improvisar teus métodos de ginástica.
Por
que lamentas ser idoso e figurar entre os mais vulneráveis?
Alguma vez te passou pela cabeça que o
melhor da velhice é não haver morrido jovem?
Já que chegastes a esta
idade, cuida de preservar a tua vida por mais alguns anos e, quem
sabe, décadas.
Por
que lamentas ser obrigado a fechar teu comércio, teu escritório, ameaçado de
ter tua renda reduzida?
Já imaginastes se não fossem tomadas
medidas restritivas e a pandemia se multiplicasse a ponto de atingir a ti e a
teus entes queridos?
Por
que lamentas o que te soa como perda ou privação?
Nunca pensastes nas pessoas em situação
de guerra, nos refugiados, nos que não têm acesso a nenhum sistema de saúde?
Não contabilizes as tuas
perdas, contabiliza os teus ganhos, como estar vivo, gozar de
boa saúde e desfrutar do convívio com tua família.
Por
que lamentas não suportar a solidão que te obriga a um encontro mais íntimo
contigo mesmo?
Não é hora de dar um balanço na própria
vida, reavaliar os valores abraçados e reconsiderar convicções arraigadas?
Não é este o momento de reinventar-te?
Não
lamentes!
Tens um teto, o alimento garantido e boa
saúde.
És um privilegiado.
Lamenta, sim, por aqueles que nada
disso possuem.
Não por escolha, e sim por serem vítimas
de um sistema econômico seletivo e excludente, no qual os interesses do capital
privado pairam acima dos direitos coletivos.
Não
te afogues em teu lamento.
Extraia
dele forças para mudar o que consideras injusto.
E cuida-te!
Não te julgues imortal.
O teu e o meu dia chegarão.
Mas não apressemos os desígnios de Deus.
Na vida nada tem maior valor do que a
própria vida.
Guarda teu
pessimismo para dias melhores.
E repete a “Prece” de Fernando
Pessoa: “Senhor, protege-me e ampara-me.
Dá-me que eu me sinta teu. Senhor,
livra-me de mim”.
Edivaldo do Carmo
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