sexta-feira, 17 de abril de 2020

Seção Mensagem Edivaldiana

Por que lamentas?

O texto a seguir, intitulado Por que lamentas? é de Frei Betto. Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Editora Cortez), entre outros livros que o referido escritor já tem publicado... Um texto a nos interpelar diante da realidade da vida e do contexto em que estamos vivendo, propondo-nos lamentar menos, quando existem tantos em situações de lamentos e que são mais agradecidos que não deveriam, realmente, passar pelo que estão passando.

 Por que lamentas?

Estampa disponível em https://domtotal.com/artigo/8736/2020/04/por-que-lamentas/ acessado hoje

 Por que lamentas?

 

       Por que lamentas estar isolado dentro de casa?

      Já pensaste naqueles que nem casa têm e são obrigados a conviver com o risco iminente da infecção?

      Ou será que o teu coração é um cômodo entupido de ego, sem lugar para mais ninguém?

       Por que lamentas se, agora, vives em uma prisão de luxo, com liberdade para estabelecer teus horários e escolher a comida que te agrada? 

       Pensa naqueles que enfrentam longas filas para receber uma quentinha da caridade alheia. 

       Por que lamentas ao se ver obrigado a cancelar a festa de aniversário ou casamento, e arcar com o prejuízo que não será ressarcido?

       O que preferirias, a festa com o Coronavírus invisível circulando entre teus convidados ou preservar a tua e outras vidas para festas vindouras?

       Por que lamentas não poder, agora, fazer a viagem sonhada e programada, e se ver forçado a ficar recolhido em teu espaço doméstico?

       Ou seria melhor uma passagem sem volta para a morte?

       Por que lamentas não poder sair à rua, encontrar amigos e voltar a tua rotina de trabalho e lazer?

       Ainda podes conversar por telefone, talvez trabalhar desde casa e improvisar teus métodos de ginástica.

       Por que lamentas ser idoso e figurar entre os mais vulneráveis?

       Alguma vez te passou pela cabeça que o melhor da velhice é não haver morrido jovem?

       Já que chegastes a esta idade, cuida de preservar a tua vida por mais alguns anos e, quem sabe, décadas.

       Por que lamentas ser obrigado a fechar teu comércio, teu escritório, ameaçado de ter tua renda reduzida?

       Já imaginastes se não fossem tomadas medidas restritivas e a pandemia se multiplicasse a ponto de atingir a ti e a teus entes queridos?

       Por que lamentas o que te soa como perda ou privação?

       Nunca pensastes nas pessoas em situação de guerra, nos refugiados, nos que não têm acesso a nenhum sistema de saúde?

       Não contabilizes as tuas perdas, contabiliza os teus ganhos, como estar vivo, gozar de boa saúde e desfrutar do convívio com tua família.

       Por que lamentas não suportar a solidão que te obriga a um encontro mais íntimo contigo mesmo?

       Não é hora de dar um balanço na própria vida, reavaliar os valores abraçados e reconsiderar convicções arraigadas?

       Não é este o momento de reinventar-te?

       Não lamentes!

       Tens um teto, o alimento garantido e boa saúde.

       És um privilegiado. 

       Lamenta, sim, por aqueles que nada disso possuem.

       Não por escolha, e sim por serem vítimas de um sistema econômico seletivo e excludente, no qual os interesses do capital privado pairam acima dos direitos coletivos. 

       Não te afogues em teu lamento.

       Extraia dele forças para mudar o que consideras injusto.

       E cuida-te!

       Não te julgues imortal.

       O teu e o meu dia chegarão.

       Mas não apressemos os desígnios de Deus.

       Na vida nada tem maior valor do que a própria vida. 

       Guarda teu pessimismo para dias melhores.

       E repete a “Prece” de Fernando Pessoa: “Senhor, protege-me e ampara-me.

       Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim”.


                  Edivaldo do Carmo


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