segunda-feira, 11 de maio de 2020

SEM - Seção Edivaldiana (Mensagem)

REFLEXÃO PASCALParte I | JOÃO 10,1-10 (ANO A) | Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues

Todos os anos, o evangelho é tirado do capítulo décimo do Evangelho segundo João, no qual Jesus se auto define como o único, bom e verdadeiro pastor das ovelhas.

Por isso, esse domingo foi intitulado de “domingo do pastor” e, oportunamente, o Papa Paulo VI o instituiu também como o “dia mundial de oração pelas vocações”, no ano de 1964.

No entanto, no texto deste ano, o ano A do ciclo litúrgico – Jo 10,1-10 – Jesus ainda não é apresentado diretamente como pastor, mas como porta única por onde devem passar ovelhas e pastores.

Ele só começa a ser apresentado como pastor a partir do primeiro versículo que sucede ao texto de hoje (Jo 10,11).

Curiosamente, o termo ovelhas aparece sete vezes no texto de hoje, e é em função das ovelhas que o pastor existe.

Faremos hoje a contextualização em dois níveis: num nível mais amplo, considerando a imagem do pastor no cristianismo e em Israel e, em seguida, num nível mais literário, considerando a posição do texto no conjunto do Quarto Evangelho.

A imagem de Jesus como bom pastor caiu na graça do cristianismo desde os seus primórdios.

Tornou-se clássico representá-lo como um pastor carregando uma ovelha nos ombros, imagem bonita, mas que não corresponde exatamente em nada ao décimo capítulo do Evangelho de João.

Ora, aquela bela imagem do pastor com a ovelha nos ombros corresponde ao personagem de Lucas na chamada “parábola da ovelha perdida” (cf. Lc 15,1-7). A imagem de pastor presente no Quarto Evangelho é bem diferente: ele não carrega nem conduz ninguém nos ombros, pois isso é sinal de dependência e privação da liberdade.

O pastor verdadeiro é aquele que aponta caminhos, é seguido porque conhece suas ovelhas e se deixa conhecer por elas.

Também é importante recordar que a figura do pastor sempre foi muito significativa para o povo de Israel.

Desde o Antigo Testamento, essa imagem foi associada a Deus e também aos líderes que assumiram funções de guia e comando sobre o povo, como reis e sacerdotes, principalmente.

Devido às infidelidades e descaso desses líderes, essa imagem foi se desgastando ao longo do tempo, sendo alvo de denúncias da parte dos profetas. Uma das denúncias mais fortes foi aquela do profeta Ezequiel: lamentando-se dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (cf. Ez 34,1-2), Deus toma a iniciativa de destituí-los e cuidar ele mesmo do rebanho (cf. Ez 34,11).

Jesus atualiza a perspectiva do profeta: sendo ele o único e autêntico pastor, estão destituídos os sacerdotes do templo e os mestres da lei. Suas palavras tiveram grande repercussão porque mexiam com os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por funcionários do sagrado, ao invés de pastores verdadeiros.

A prova do incômodo causado pelas palavras de Jesus está na reação dos líderes judeus após esse discurso: uns diziam que ele estava endemoniado (cf. Jo 10,20), outros queriam prendê-lo (cf. Jo 10,39).

A mensagem de Jesus foi uma ameaça aos dirigentes que apascentavam apenas a si e às suas economias, explorando o povo ao invés de protege-lo.

        Edivaldo do Carmo

 

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