REFLEXÃO PASCAL – Parte III | JOÃO 10,1-10 (ANO A)
| Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Assim como a comunidade joanina, também as de hoje devem estar atentas
ao que lhes é ensinado: quando não for a voz de Jesus, ou seja, o Evangelho,
devem repulsar e rejeitar sem medo.
O pastor autêntico “chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora”,
ou seja, não trata o povo como massa, mas o tira do anonimato, valorizando a
cada um em sua individualidade e liberdade, por isso, chama pelo nome, criando
um laço de intimidade.
A relação já não é mais entre dominador e dominado, mas entre pessoas
que se conhecem e se amam reciprocamente.
“Conduzir para fora” é libertar, tirar da opressão, livrar o povo de um
poder arbitrário, inautêntico que usa o nome de Deus para explorar e até matar;
é dessa situação que Jesus quer tirar todos os que escutam a sua voz; o
evangelista usa aqui o mesmo verbo do êxodo. Jesus quer, portanto, promover um
novo êxodo, denunciando que a elite religiosa do seu tempo era tão nociva para
o povo quanto o faraó do Egito e seu regime de escravidão.
É interessante perceber o objetivo da libertação proposta por Jesus: a
vivência plena da liberdade! Por isso, “ao fazer sair todas, caminha à sua
frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (v. 4); Jesus não
quer tirar o povo de um sistema dominante opressor para começar a dominar
também; domínio e imposição não fazem parte da sua práxis.
Ele liberta e, após a libertação, apenas aponta caminhos, ou seja, Ele
“caminha à frente” e, obviamente, quem escutar verdadeiramente a sua voz, ou
seja, quem aceitar o Evangelho como proposta de libertação, o seguirá
tranquilamente por conhecer uma voz autêntica. Antes de tudo, é para a
liberdade que ele aponta e conduz.
Mais uma vez, ressaltamos o cuidado do evangelista para com a comunidade
cristã, para que na mesma não surjam líderes impostores.
Onde a voz do Evangelho é conhecida, não há dominadores e dominados, e
será esse o traço característico da comunidade cristã.
Destituindo o poder da antiga instituição religiosa, Jesus não propõe
nenhuma forma de poder para sua comunidade; Ele quer apenas que essa seja
livre, autônoma e capaz de discernir e optar pelo bem, ou seja, pelo Evangelho,
o qual, como única voz de Jesus, dispensa todo código ou sistema doutrinal e
moral, mesmo que elaborado em seu nome.
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