segunda-feira, 11 de maio de 2020

SEM - Seção Edivaldiana (Mensagem)

REFLEXÃO PASCAL – Parte II | JOÃO 10,1-10 (ANO A) | Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues 

(Estampa dispinível em https://www.dioceseunivitoria.org.br/2020/04/4o-domingo-de-pascoaano-a/ acessada hoje)

A nível de contexto literário, é oportuno recordar que esse décimo capítulo do Quarto Evangelho é precedido pelo polêmico episódio da cura do cego de nascença, do qual surgiu um caloroso conflito com os fariseus (cf. Jo 9,1-41).

Para os fariseus e os dirigentes judeus, o gesto libertador de Jesus, ao curar o cego, era uma ameaça aos seus privilégios, por isso, o rechaçaram veemente, mas Jesus não se deu por vencido e, por isso, continuou sua investida para desmascará-los.

É clara a relação entre os dois textos: Jesus abre os olhos para que as pessoas não se deixem enganar pelos falsos pastores, e para que adquiram lucidez e conhecimento para seguirem ao único e verdadeiro pastor, entrando e saindo pela única porta que conduz à vida em plenitude. Isso era inadmissível para um sistema religioso que dominava a partir da imposição e do medo.

O cenário da narrativa é a cidade de Jerusalém, provavelmente as imediações do templo.

Olhemos, pois, para o texto.

A fórmula solene de introdução empregada pelo autor, traduzida por “Em verdade, em verdade” (v. 1), indica a importância do que será ensinado; é uma fórmula exclusiva do Quarto Evangelho, empregada sempre no início de declarações importantes de Jesus, funcionando como uma chamada de atenção aos interlocutores para a importância do que está para ser dito.

Logo, o conceito de pastor apresentado no décimo capítulo de João é vital para a comunidade cristã; é algo não pode ser esquecido e nem distorcido.

À introdução solene, segue a declaração: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante” (v. 1).

Com essa afirmação, Jesus está fazendo uma dura acusação e denúncia à ilegitimidade dos chefes religiosos do seu tempo, e aos seus interlocutores, os fariseus (cf. 9,40-41); assim, ele aplica a imagem tradicional de ovelhas/rebanho ao povo, acusando seus dirigentes de ladrões e bandidos.

Logo no primeiro versículo, a tradução litúrgica deixa a desejar em duas ocorrências: ao invés de redil, o termo mais apropriado seria átrio ou pátio; não se trata propriamente de um curral, mas do átrio interno do templo de Jerusalém.

Também a palavra assaltante não corresponde à ideia do autor; inclusive a prática de assaltar já está contemplada na palavra ladrão.

Ao invés de assaltante o termo mais adequado é bandido, pois corresponde melhor à palavra grega empregado pelo autor, a qual designa mais a pessoa que pratica violência.

Essa observação é importante, pois evidencia ainda mais o teor da denúncia.

Ora, as denúncias de Jesus às arbitrariedades do poder religioso de seu tempo foram iniciadas ainda no segundo capítulo de João, no episódio da chamada “purificação do templo” (Jo 2,13-22).

Portanto, os ladrões e bandidos do texto de hoje são os mesmos que tinham ajudado a transformar “a casa do Pai em uma casa de negócio” no início do Evangelho (cf. 2,16).

São ladrões e assaltantes porque assumiram uma função sem a designação do Pai, ou seja, estão ali, mas não entraram pela porta.

Ao contrário dos dirigentes e dos fariseus, “quem entra pela porta, é o pastor das ovelhas” (v. 2), e esse alguém é o próprio Jesus.

De fato, somente Ele recebeu permissão do Pai para comunicar-se diretamente com as ovelhas, o povo.

A Jesus, o único pastor autêntico, “o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (v. 3); é o Pai quem envia e autoriza Jesus a entrar no recinto da falida instituição religiosa para libertar o povo oprimido pelo poder religioso.

O primeiro passo nesse processo de libertação é a escuta da voz de Jesus, contida somente no Evangelho; quem realmente escuta o Evangelho, não se permite ser aprisionado nem controlado por nenhum sistema religioso ou político, mesmo que esse se autodenomine cristão.

               Edivaldo do Carmo

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